Mail enviado a 14/03/2007 para
linguaportuguesa@expresso.pt, relativamente à correcção do 2º teste.
Senhoras e senhores:
Gostaria de começar por vos felicitar pela iniciativa em questão. Contudo considero necessário chamar a vossa atenção para critérios de correcção do 2º teste que não são coerentes.
Na conclusão acerca do emprego da forma Não Flexionada vs. Flexionada do Infinitivo, a Nova Gramática do Português Contemporâneo, de Celso Cunha e Lindley Cintra declara: “Como vemos, «a escolha da forma infinitiva depende de cogitarmos somente da acção ou do intuito ou necessidade de pormos em evidência o agente da acção» (Said Ali). No primeiro caso preferimos o INFINITIVO NÃO FLEXIONADO; no segundo, O FLEXIONADO.
Trata-se, pois, de um emprego selectivo, mais do terreno da estilística do que, propriamente, da gramática.”
O estilo custou-me três pontos: um no primeiro texto, outro na pergunta 18 e ainda outro na 23. Relativamente à questão 18, a resposta considerada certa, entra em conflito com o exemplo de INFINITIVO NÃO FLEXIONADO na gramática de referência: “Esta viu-os ir pouco a pouco.” (se o sujeito está explícito e é dado por um pronome oblíquo átono, o infinitivo fica no singular). A pergunta 23 está incorrectamente formulada, não se trata de conjugações verbais, mas de locuções verbais (exceptuando a primeira), segundo a obra de referência para avaliar a exactidão da sintaxe. A TLEBS (Terminologia Linguística para o Ensino Básico e Secundário) excluiu o termo "conjugação perifrástica", o termo "complexo verbal" passou a designar o conjunto verbo auxiliar + verbo principal. Tendo em conta o critério do emprego do INFINITIVO FLEXIONADO («[Quando há] necessidade de pormos em evidência o agente da acção»), a resposta B é errada, deveria ser: “Havia milhares de pessoas para embarcarem.”
Quanto à resposta C estar errada há muito a dizer, pois se por um lado, a tradição gramatical tem insistido em ter de como a expressão correcta para referir a necessidade ou a obrigação, por outro, a forma ter que começa a ser registada até por lexicógrafos como sinónima de ter de. Por exemplo, o Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa observa que «modernamente, na língua, tem-se usado. o snt. ter que + infinitivo, no qual esse que tem valor como que prepositivo, em lugar do castiço ter de + infinitivo». Do mesmo modo, o Dicionário da Língua Portuguesa Contemporânea, da Academia das Ciências de Lisboa, aceita ter que como variante de ter de. Já Fernando Pessoa dizia: «Quem quer passar além do Bojador/ Tem que passar além da dor.»
De acordo com o regulamento “a obra de referência para avaliar a exactidão da grafia das palavras é o Grande Dicionário da Língua Portuguesa, editado em Maio de 2004 pela Porto Editora”, ora não tendo disponibilidade financeira para adquirir o dito, assumi que a sua versão online seria igualmente fiável. Paguei cara a assunção, custou-me dois pontos. Na pergunta n.º 13, de acordo com a definição online: “homúnculo: pejorativo, homem insignificante, desprezível; questiúncula: questão fútil, discussão sem importância.” Segundo a obra de referência para avaliar a exactidão da sintaxe trata-se de DIMINUTIVOS ERUDITOS. Na pergunta n.º 24 diz acerca de imirjo: presente do indicativo de
imergir (1.ª pessoa do singular). Contudo a Nova Gramática inclui o verbo
imergir no grupo dos VERBOS DEFECTIVOS: verbos que não possuem a 1.ª pessoa do presente do indicativo. No regulamento deviam avisar que as duas obras de referência dão informações opostas e no segundo caso erradas. É verdade que são questões de sintaxe e não de grafia, mas isso não justifica a flagrante disparidade.
Respeitosamente,
Paula Pintassilgo
